Segmento já movimenta R$ 6 bi e é um dos que mais cresce no país, impulsionado por famílias que buscam proteção contra imprevistos
Quando os temporais interrompem o fornecimento de energia, centenas de residências ficam às escuras. Em muitos casos, o problema não foi só a falta de luz, mas sim televisores queimados, portões eletrônicos travados, geladeiras danificadas e sistemas de segurança fora do ar, que transformaram uma ocorrência climática em prejuízo financeiro imediato. Para parte das famílias, o impacto foi absorvido pelo seguro residencial. Para outras, virou uma conta inesperada que se estendeu por meses.
E quando o imprevisto acontece fora das grandes tempestades — o chuveiro que queima, a fechadura que trava, um cano que estoura ou uma tomada que entra em curto — o efeito no orçamento pode ser igualmente pesado, especialmente quando o reparo precisa ser feito às pressas e com mão de obra especializada.
Esse conjunto de situações ajuda a explicar por que, em 2026, o seguro residencial passou a ganhar espaço no planejamento financeiro das famílias brasileiras. A maior frequência de eventos climáticos extremos, a pressão sobre a infraestrutura urbana e a elevação nos custos de reposição de eletrodomésticos, eletrônicos (que já não duram tanto) e serviços de reparo criaram um ambiente em que o risco dentro de casa deixou de ser uma hipótese distante e passou a fazer parte da rotina.
Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projetam que o mercado de seguros no Brasil deve alcançar cerca de R$ 100 bilhões em 2026, com crescimento anual estimado em cerca de 8%. No segmento residencial, aproximadamente 17% dos domicílios brasileiros contam com seguro residencial, o que equivale a cerca de 13 milhões de casas seguradas — um percentual baixo frente ao total de lares, mas que indica expansão em um mercado ainda em formação.
Entre 2023 e 2025, a arrecadação de seguro residencial no país ultrapassou R$ 6 bilhões, um aumento de 16,5% em 2024 em relação ao ano anterior, segundo levantamento da CNseg, reflexo da maior preocupação dos brasileiros com a segurança de seus imóveis diante de riscos como tempestades, quedas de árvores e danos estruturais causados por intempéries.
Perdas seguradas decorrentes de desastres naturais, incluindo tempestades severas e incêndios florestais, chegaram a cerca de US$ 80 bilhões no primeiro semestre de 2025, quase o dobro da média dos últimos dez anos, segundo relatório da Swiss Re Institute.
“A percepção mudou porque os números mudaram. Reparos que antes custavam algumas centenas de reais hoje facilmente ultrapassam milhares. Trocar um portão eletrônico, refazer uma instalação elétrica ou reparar infiltrações após uma tempestade já não cabe no orçamento de boa parte da população. Ao mesmo tempo, a insegurança urbana elevou a demanda por coberturas contra roubo e furto qualificado, especialmente em grandes cidades”, explica Hugo Reichenbach, sócio e diretor de operações da Real Seguros Viagem.
Da emergência ao cotidiano
O que diferencia o seguro residencial atual das apólices tradicionais não é apenas a cobertura contra grandes sinistros, como incêndios ou explosões. O produto foi moldado para o uso recorrente. Serviços como chaveiro, eletricista, encanador e reparos emergenciais fazem parte de grande parte dos contratos.
Na prática, isso altera a lógica do consumo. Uma fechadura quebrada ou um curto-circuito, antes uma despesa inesperada, passou a ser um serviço acionável pelo aplicativo da seguradora. É nesse ponto que o seguro começa a disputar espaço com outras despesas fixas do orçamento doméstico.
“Hoje, o cliente não contrata o seguro apenas pensando no pior cenário. Ele contrata porque usa”, afirma Reichenbach. “A assistência 24 horas tem sido decisiva para muitas famílias, que utilizam o seguro não apenas em grandes sinistros, mas também no dia a dia, reduzindo gastos emergenciais e trazendo tranquilidade em situações corriqueiras”, conta Hugo Reichenbach.
A digitalização também alterou o perfil do produto. Empresas que operavam em nichos como assistência ao viajante ou seguros temporários passaram a aplicar a mesma infraestrutura tecnológica no segmento residencial. O resultado são apólices contratadas em poucos minutos, com coberturas modulares e preços que começam abaixo do custo de um jantar fora.
“Existe uma mudança na forma como as pessoas tratam o imóvel”, diz Reichenbach. “Ele não é só um lugar para morar, mas um ativo. E ativos precisam de proteção contínua, não apenas de uma reserva guardada no banco.”
Com custos de materiais de construção e mão de obra em alta, o impacto de um sinistro doméstico hoje é muito maior do que era há cinco ou dez anos. Uma simples infiltração pode exigir semanas de obra e comprometer o orçamento familiar.
“Assim, o seguro residencial funciona como um mecanismo de amortecimento. Ele não evita o problema, mas impede que o problema vire uma crise financeira”, afirma o diretor da Real Seguros Viagem..
Para 2026, a expectativa do mercado é de que essa lógica se aprofunde. Com mais dados, mais eventos climáticos extremos e maior volatilidade urbana, o risco residencial passa a ser tratado como parte da equação econômica das famílias, não como exceção.
“As pessoas perceberam que não é o evento extremo que mais pesa, mas a soma dos pequenos imprevistos”, diz Reichenbach. “O seguro virou uma forma de manter o orçamento em pé quando tudo ao redor parece cada vez mais instável”, finaliza.
FONTE: Engenharia de Comunicação











